17 de fevereiro de 2010

Viagens de Gulliver

"Eu disse existir entre nós uma sociedade de homens educados desde a juventude na arte de provar, por meio de palavras multiplicadas para esse fim, que o branco é preto, e que o preto é branco, segundo eram pagos para dizer uma coisa ou outra. Todo o resto do povo é escravo dessa sociedade. Por exemplo, se meu vizinho tenciona em ficar com minha vaca, contrata um advogado para provar que deve tirar-me a vaca. Nesse caso, tenho de contratar outro advogado para defender meus direitos, pois é contrário a todas as normas da lei permitir-se a um homem falar em seu próprio nome. Pois bem, nessas condições, eu, que sou o verdadeiro dono, me vejo a braço com duas grandes desvantagens: a primeira, meu advogado, habituado quase desde o berço a defender a falsidade, está completamente fora do seu elemento quando precisa advogar a justiça, ofício desnatural, em que sempre se empenha com grande inépcia, senão com má vontade. A segunda desvantagem reside em que meu advogado tem de proceder com muita cautela, para que o não censurem e aborreçam os colegas, como a alguém que degradasse o exercício da profissão."

SWIFT, Jonathan, 1667-1745. Viagens de Gulliver (Gulliver's Travels), Inglaterra, 1726.

26 de janeiro de 2010

Cores Proibidas

"A existência da obra artística contém em si uma duplicidade. Essa era sua opinião. Da mesma maneira que uma velha semente de lótus desenterrada pode voltar a dar flores, as obras artísticas de vida eterna ressucitam no coração de todas as épocas e países. Ao entrarmos em contato com uma obra antiga, nossa vida torna-se prisioneira do espaço e do tempo contidos na obra e descarta o resto da vida presente. Vivemos então uma segunda vida, cujo tempo interior já está previsto e estabelecido. Isso é o que chamamos de estilo. Espantamo-nos inconscientemente com a incrível força que uma obra tem de alterar nossa visão de vida, e isso é obra do estilo. Ora, sempre falta estilo nas experiências e influências da vida. Shunsuke não se curvava aos naturalistas, que consideram que a obra de arte reveste a vida de estilo ou, em outras palavras, procura oferecer a ela uma vestimenta pronta para usar. O estilo é o destino inato da arte. É preciso ter em mente que a experiência da obra e a experiência da vida diferem justamente quanto ao estilo. Nas experiências da vida, há apenas um elemento que é mais próximo da experiência de uma obra de arte. Essa experiência é a emoção que a morte nos causa."

MISHIMA, Yukio, 1925-1970. Cores Probidas (Kinjiki), Japão, 1951.

29 de dezembro de 2009

John Bull's Other Island

"Quando eu digo que sou irlandês, quero dizer que nasci na Irlanda e que minha língua nativa é o inglês Swift, e não o jargão execrável dos jornais londrinos de meados do século XIX. Minha linhagem é a linhagem da maioria dos ingleses: ou seja, não tenho em mim nenhum traço da tensão comercialmente importada do espanhol do norte, que se passa por irlandês aborígine: sou um irlandês típico, genuíno, oriundo das invasões dinamarquesa, normanda, cromwelliana e (claro) escocesa. Sou violenta e arrogantemente protestante por tradição de família; mas o governo inglês pode contar com minha lealdade: sou bastante inglês para ser um republicano e um autonomista inveterado. É verdade que um de meus avós era orangista; mas então sua irmã era abadessa; e seu tio, orgulho-me de dizê-lo, foi enforcado como rebelde. Quando olho ao meu redor e vejo esses cosmopolitas híbridos, envenenados pelo favela ou mimados pela praça, que hoje se autoproclamam ingleses, e os vejo maltratados pela guarnição protestante irlandesa de um modo que nenhum inglês permite sê-lo hoje por um inglês; quando vejo os irlandeses em toda a parte gabando-se de ser perspicazes, sadios, duramente calejados contra os sentimentalismos, suscetabilidades e credulidades pueries que fazem do inglês a presa fácil de qualquer charlatão e o idólatra de qualquer néscio, percebo que a Irlanda é o único lugar na Terra que ainda produz o inglês ideal da história."

SHAW, George Bernard. 1856-1950. John Bull's Other Island (1904). Rev. por Standart Edition, 1947. Perface to politicians: what is an Irishman? Londres: Constable & Company, 1931, p.15-16.

24 de dezembro de 2009

História do Cerco de Lisboa

"Nos seus apontamentos para a carta a Osberno, notou Frei Rogeiro, embora de tal não viesse a fazer menção na redacção definitiva, uma minuciosa descrição da chegada do cavaleiro Henrique ao arraial da Porta de Ferro, incluindo certa alusão, pelos vistos irrefreável, a mulher que com ele vinha, Ouroana de seu nome, formosa como o amanhecer, misteriosa como o nascer da lua, foram expressões do frade, que a prudência disciplinar, por um lado, e o pudor parece que melindroso do destinatário, por outro, aconselharam a expungir. Ora, é bem possível que este e outros recalcados movimentos de alma tenham sido a causa, por via de sublimação, do cuidado com que Frei Rogeiro passou a acompanhar os ditos e feitos do cavaleiro alemão, antes, mas sobretudo depois da sua infeliz morte, mas não desgraçada, como a seu tempo se tornará patente. Em por claro, diremos que não podendo Frei Rogeiro satisfazer em Ouroana os apetites, não encontrou melhor exutório, salvo outro qualquer secreto, que exaltar até à desmedida o homem que se gozava do corpo dela. Da complexidade da alma humana tudo podemos esperar."

SARAMAGO, José, 1922-2010. História do Cerco de Lisboa, Portugal, 1989.

30 de novembro de 2009

Os Brasileiros: Livro I - Teoria do Brasil

Nota do blogueiro: quebrei a regra de postar somente um parágrafo do livro por este não ser, como de costume, um romance ou uma poesia; trata-se de uma definição antropológica do conflito estabelecido entre as diferentes classes que compõem a sociedade brasileira. Não poderia, portanto, limitar tal explicação a menos do que aqui apresento.

"(...) A atribuição de uma postura progressista ao patronato moderno se deve, em alguns casos, à presença de seu corpo fiscal ou cartorial. Este, tendo como sua área natural de operação e expansão o próprio Estado, mimetiza-se e se adapta segundo o caráter do governo que exerça o poder, fazendo-se progressista, reformista, nacionalista ou reacionário, conforme estas posições lhe assegurem ou não o favorecimento de contratos de obras ou o abastecimento de órgãos estatais.

A postura política dos setores intermediários, caracterizada embora pela ambigüidade a que nos referimos, é fundamentalmente conversadora e até reacionária. Contribui para isto o caráter brutalmente desigualitário da estrutura social vigente que coloca diante de seus olhos, e até introduz em seus lares como serviçais, vastas camadas miseráveis, cujas carências constrastam com a condição relativamente privilegiada das classes médias. Contribui também a presença de setores das classes subalternas, como os operários especializados às vezes melhor remunerados, mas vistos como rudes e inferiores pela sua posição social, sua educação precária e seus hábitos de vida menos exigentes quanto a aspectos formais. Nestas circunstâncias, os setores intermédios entram em competição ativa com as classes subalternas, sobretudo com as camadas mais altas dela, cujo empenho em melhorar suas condições de vida e ascender socialmente comparece, a seus olhos, como uma ameaça às vantagens que desfrutam, porque tenderia a dissolver alguns desníveis nos padrões de consumo e nos estilos de vida, altamente apreciados pelos setores médios como suposta expressão de sua superioridade. Tudo isto introjeta neles um sentimento de rancor e amargura pronto a eclodir, tanto com respeito aos que estão acima deles como e, principalmente, contra os que estão abaixo.

As classes subalternas constituem o setor potencialmente mais dinâmico da estrutura social por sua condição de força de trabalho básica do sistema produtivo, que engloba o contigente tecnicamente mais qualificado, das empresas modernas, e o único capacitado a impor suas reivindicações através de greves. Representa, também, o principal contigente politicamente autônomo das populações urbanas, o que lhes confere influência e peso eleitoral em um regime democrático. Este dinamismo potencial - que se expressa sempre que surgem condições mínimas para isto - opondo as classes subalternas à estrutura de poder, concentra nelas todo o peso da repressão, a fim de paralisá-las como classe virtualmente capacitada a mudar a ordem vigente para substituí-la por outra que lhe seja mais favorável. Embora, teoricamente, seu horizonte de aspirações corresponda a uma postura revolucionária predisposta a transformar a sociedade, de fato, seu grau de politização a leva a reivindicar apenas uma ordem social melhor. Contribui para isto - além da dificuldade inerente a todos os proletariados para operar o trânsito de uma consciência ingênua a uma consciência crítica - sua posição de classe intersticial que tem abaixo de si o imenso bolsão dos marginalizados, vivendo em condições muito mais precárias nas quais teme cair por desclassamento.

Por tudo isso, as massas marginalizadas são, na realidade, a classe oprimida da estrutura social, embora não tenham - e dificilmente venham a construir - uma consciência de si correspondente a esta condição. Sua visão de mundo é uma mistura de arcaísmo, proveniente de antigas tradições orais hauridas do campo, e de modernidade elaborada à luz de imagens difundidas pelos modernos meios de comunicação que as atingem. Sua visão de si é a de uma pobre gente que vegeta em um mundo discricionário onde um Deus arbitrário luta contra demônios que não podem ser domados.

No caso do Brasil, cujas classes dominantes se formaram no escravismo com uma postura socialmente irresponsável com respeito às classes subalternas e, sobretudo, às oprimidas, cristalizou-se uma estrutura social cruamente desigualitária que gera enormes tensões, dificultando ao extremo a conciliação de classes. Embora os conflitos raciais sejam menores que em outras partes, a distância social que separa os ricos e remediados dos pobres e, principalmente, dos miseráveis, não podia ser maior. Não cabe aqui nenhuma instituição democrática ou dignificadora. Todos sabem que a igualdade perante a lei é uma igualdade dos pares, que são os patrões e os patrícios e, no máximo, a 'gente boa' dos setores intermédios; que ela dificilmente se aplica à subgente subalterna e jamais à não-gente marginalizada.

Por tudo isto, a preocupação fundamental das classes dominantes é a manutenção da ordem. Ontem, elas sabiam que uma revolta de escravos, que se expandisse, desencadearia ódios que fariam sangrar toda a sociedade, destruindo as bases da convivência social. Hoje elas temem que, caso as classes subalternas cheguem a expressar as próprias aspirações, se torne inevitável sua própria erradicação do comando da estrutura do poder e talvez também do papel de gestores do sistema econômico. Mais ainda, porém, elas temem uma rebilão das classes oprimidas que desataria agravos secularmente contidos, capazes de colocar em xeque toda a estrutura social.

Uma classe dominante desvairada por estes temores mortais só tem uma preocupação obsessiva que é a da ordem a qualquer custo. Ela sabe perfeitamente que as classes subalternas apenas aspiram a uma melhoria de suas condições de vida e de trabalho e de oportunidades de ascensão social para seus filhos, através da educação; e que as classes oprimidas apenas reivindicam o simples direito ao trabalho regular como assalariados. Estas singelas aspirações e reivindicações poderiam, obviamente, ser atendidas, desde que a estrutura de poder redefinisse alguma de suas diretrizes básicas, como o monopólio da terra, a espoliação estrangeira e a precedência absoluta dos interesses privados sobre o bem comum. Estas inovações só representariam perdas de riqueza, poder e privilégios para certos setores, sobretudo os mais arcaicos. O que impede, porém, a reordenação política que corresponderia aos objetivos do que seria uma 'burguesia nacional progressista' é o caráter monoliticamente solidário de toda a classe dominante. É o temor co-participado por todos os privilegiados de que, uma vez aberta a ordenação social à redefinição, eclodiria um processo revolucionário incontrolável, conducente ao socialismo.

Assim se verifica que, paradoxalmente, no plano ideológico, as classes dominantes contruíram uma consciência de classe correspondente à sua posição irredutível à ameaça virtual de uma revolução socialista. As classes dominadas, porém, estão longe de construírem sua própria consciência de classe correspondente ao desafio histórico de se fazerem os construtores de uma sociedade socialista."

RIBEIRO, Darcy. Os Brasileiros: Livro I - Teoria do Brasil. 4ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1978, p. 96-99.

3 de novembro de 2009

Introdução a uma Verdadeira História do Cinema

"Hoje acho que um filme não deve ser feito sempre com os mesmos motivos... e é por isso que não é preciso fazê-los sempre da mesma maneira. Hoje em dia, o fato de haver o vídeo, os filmes de amador, ou uma infinidade de coisas... pode-se fazer... Já não é verdade que um filme custa caro; alguns filmes custam caro, outros são baratos; e, às vezes, certos momentos de filmes não precisam ser filmes, do mesmo modo que, com as frases que a gente diz no decorrer do dia, não tentamos fazer um romance; isto faz parte do romance da nossa vida, mas não tentamos fazer com que a frase que dizemos ao comprar um quilo de carne ou ao tomar um táxi... que tudo isso componha um todo harmonioso e depois a gente diga à tarde: 'Oh, que bela obra eu fiz hoje!' A mesma coisa acontece com os filmes, isso vale para eles."

GODARD, Jean-Luc, 1930-. Introdução a uma Verdadeira História do Cinema, França, 1980.

20 de outubro de 2009

Qualquer Ferro Velho

"O próprio governador de Gibraltar lhe dissera que não era coisa que se fizesse beber com estranhos em bares estrangeiros e depois apunhalá-los em vielas escuras. Mesmo na guerra total tinha-se de respeitar as regras do jogo. Então havia uma diferença, havia, entre guerra e assassinato? Certamente que sim. A essência da guerra moderna era que você matasse à distância, anonimamente e sem animosidade imediata. Você matava, ou ordenava que matassem com espírito generoso, e sustentava a generosidade de espírito por não ter consciência direta da agonia e posterior desaparecimento de sua vítima. A história da guerra, como da própria civilização, da qual a guerra era um aspecto, era a história de um crescente distanciamento e anonimato. Será que o sargento Jones pensava que as valentes tripulações dos bombardeiros de saturação que tão poderosamente esmigalharam casas de velhos e enfermeiras de maternidades seriam capazes de continuar suas missões heróicas se realmente testemunhassem os seres humanos em vez dos resultados estratégicos de suas devastações?"

BURGESS, Anthony, 1917-1993. Qualquer Ferro Velho (Any Old Iron), Inglaterra, 1987.

24 de setembro de 2009

Tônio Kroeger

"Nesta noite levou consigo sua imagem, com a loura e grossa trança, com os olhos azuis, oblíquos e risonhos, com um selim de sardas, delicadamente marcado, sobre o nariz, e não conseguiu dormir porque ouvia o som de sua voz, tentava baixinho imitar a entonação com a qual pronunciava a palavra e ao fazê-lo sentia-se arrepiar. A experiência fê-lo saber que era o amor, apesar de ter certeza que o amor deveria trazer-lhe muita dor, tormentos e humilhações, e que além disso destruía a paz e deixava o coração transbordar com melodias sem que se encontrasse sossego para dar forma a alguma coisa e tranqüilamente forjar uma peça inteiriça. Assim mesmo aceitava-o, entregava-se completamente e zelava por ele com as forças de sua alma, pois sabia que o amor enriquecia e dava vida e ele ansiava por ser rico e vivo em vez de na tranqüilidade forjar algo concreto..."

MANN, Thomas. Tônio Kroeger, Alemanha, 1903.

14 de setembro de 2009

Os Buddenbrook

"A consulesa, apoiada em várias almofadas, encontrava-se de costas. As mãos, essas belas mãos, entremeadas por veias de um azul pálido, e que agora pareciam tão magras, definhadas por completo, acariciavam a colcha, incessante e apressadamente, numa precipitação trêmula. A cabeça, coberta por uma touca branca, virava-se sem interrupção, em horripilante ritmo pendular. A boca, cujos lábios pareciam ser puxados para dentro, abria-se e fechava-se bruscamente, a cada uma das penosas tentativas de respiração. Os olhos encovados vagavam em busca de socorro, para, de quando em vez, se fitarem com expressão comovente de inveja numa das pessoas presentes que estavam vestidas e podiam respirar, que pertenciam à vida e que nada mais sabiam senão fazer o sacrifício amoroso de manter o olhar cravado nesse quadro. E a noite avançava sem que houvesse uma alteração."

MANN, Thomas, 1875-1956. Os Buddenbrook (Decadência Duma Família), Alemanha, 1901.