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14 de setembro de 2010

O Renegado

"-Em muitas coisas -disse ela. - Admirando essas flores, que parecem feitas para nós, eu perguntava para mim mesma para quem nós somos feitos, nós; quais são os seres que nos interessam. Vós sois meu pai, posso dizer-vos o que em mim se passa; vós sois hábil, posso explicar-vos tudo. Sinto em mim como que uma força que necessita exercer-se, luto contra qualquer coisa. Quando o tempo está cinzento, estou meio contente, sinto-me triste, mas tranqüila. Quando está bonito, quando as flores cheiram bem, quando estou além, sentada no meu banco sob as madressilvas e os jasmins, elevam-se em mim vagas a quebrar-se contra minha imobilidade. Vêm-me ao espírito idéias, que me ferem e somem semelhante aos pássaros que, à tarde, passam pelas nossas janelas e não consigo retê-las. Quando faço um ramalhete em que as cores são bem combinadas como num bordado, em que o vermelho morde o branco, em que o verde e o marrom se cruzam, quando tudo nele se confunde, que o ar brinca entre essas flores, misturam-se os perfumes dos cálices, sinto-me feliz, reconhecendo o que em mim se passa. Quando, na igreja, o órgão toca e os meninos respondem, dois cantos distintos falam; as vozes humanas e a música. Nesse instante, sinto-me contente, pois essa harmonia ecoa no meu coração, rezo com um prazer que me anima o sangue..."

BALZAC, Honoré de, 1799-1850. O Renegado (L'Enfant Maudit), França, publicado em dez partes de 1831 a 1836, e, pela primeira vez em um único volume, a 1837.

5 de agosto de 2010

A Mulher de Trinta Anos

"Entregue a si mesma, a marquesa pôde, pois, permanecer perfeitamente silenciosa em meio ao silêncio que estabelecera em volta de si, e não teve ocasião para sair do quarto forrado de tapeçarias onde falecera sua avó, e onde se recolhera para morrer suavemente, sem testemunhas, sem importunações, sem sofrer as falsas demonstrações dos egoísmos mascarados de afeição que, nas cidades, causam aos moribundos uma dupla agonia. Essa mulher tinha vinte e seis anos. Nessa idade, uma alma ainda cheia de ilusões poéticas encontra prazer em saborear a morte, quando ela se afigura benfazeja. Mas a morte é uma sedutora falaz das pessoas jovens; aproxima-se e recua, mostra-se e esconde-se; a demora desilude-as dela, a incerteza que lhes causa o amanhã termina por lançá-las de novo no mundo, onde tornarão a encontrar a dor que, mais impiedosa que a morte, há de feri-las sem fazer esperar. Ora, essa mulher que se recusava a viver ia sentir a amargura dessa demora no fundo de sua solidão, e nesta fazer, numa agonia moral que a morte não terminaria, uma terrível aprendizagem de egoísmo que devia corromper-lhe o coração e amoldá-lo à sociedade."

BALZAC, Honoré de, 1799-1850. A Mulher de Trinta Anos (La Femme de Trente Ans), França, 1834.