"A história da minha vida não existe. Ela não existe. Jamais tem um centro. Nem caminho, nem trilha. Há vastos espaços onde se diria haver alguém, mas não é verdade não havia ninguém. A história de uma pequena parte da minha juventude, já a escrevi mais ou menos, quero dizer, já contei alguma coisa sobre ela, falo aqui daquela mesma parte, a parte da travessia do rio. O que faço agora é diferente, e parecido. Antes, falei dos períodos claros, dos que estavam esclarecidos. Aqui falo dos períodos secretos dessa mesma juventude, das coisas que ocultei sobre certos fatos, certos sentimentos, certos acontecimentos. Comecei a escrever num ambiente que me obrigava ao pudor. Escrever, para eles, era ainda moral. Hoje, muitas vezes escrever pode não significar nada. Por vezes sei disto: a partir do momento em que não for, confundidas todas as coisas, ir ao sabor da vaidade e do vento, escrever é nada. A partir do momento em que não for, sempre, a confusão de todas as coisas numa única por essência inqualificável, escrever é nada mais que publicidade. Mas na maioria das vezes não tenho opinião sobre isso, vejo que todos os campos estão abertos, que não haverá mais muros, que a palavra escrita não saberá mais onde se esconder, se fazer, ser lida, que sua inconveniência fundamental não será mais respeitada, mas nem penso mais nisso."
DURAS, Marguerite, O Amante (L'Amant), França, 1984.
7 de maio de 2020
29 de setembro de 2019
O Cânone Ocidental
"Falstaff, no maravilhoso curso de seu destino nos palcos, provocou um coro de moralização. Alguns dos melhores críticos e especuladores foram particularmente ferinos; entre os epítetos, estão 'parasita', 'covarde', 'fanfarrão', 'corruptor', 'sedutor', além dos simplesmente palpáveis 'glutão', 'pau d'água' e 'putanheiro'. Meu julgamento favorito é o 'um velho apalermado e repugnante' de George Bernard Shaw, uma reação que atribuo à secreta percepção de Shaw de que não podia igualar-se a Falstaff em humor, e portanto não podia preferir sua própria mente à de Shakespeare com exatamente a mesma facilidade e confiança que tão freqüentemente afirmava. Shaw, como todos nós, não podia enfrentar Shakespeare sem uma compreensão antiética a si mesma, o reconhecimento da estranheza e familiaridade ao mesmo tempo."
BLOOM, Harold. 1930-. O Cânone Ocidental - Os Livros e a Escola do Tempo. 2ª edição. Rio de Janeiro, Ed. Objetiva: 1995, pág. 55.
BLOOM, Harold. 1930-. O Cânone Ocidental - Os Livros e a Escola do Tempo. 2ª edição. Rio de Janeiro, Ed. Objetiva: 1995, pág. 55.
22 de setembro de 2019
Os Desvalidos
"A partir dessa descaída, ocioso e judiado, enquanto aturava a espera de alguma oportunidade pra se botar a um novo ramo, Coriolano se dana a ler as brochuras de histórias em prosa e verso, que apenas folheadas e paparicadas, há anos o aguardavam , amontoadas em poeira, uma vez que a consumição da química lhe engolira todo o tempo disponível. E como levou mais de ano sem arrumar uma triste colocação, leu com tal afinco e tal prazer que amoleceu as preocupações, enfiado no seu cancioneiro de tão boa gente. Ainda hoje soletra de memõria quase toda A vida de Cancão de Fogo e seu testamento, e Os doze pares de França. E se leitura enchesse barriga, palavra que ele continuaria galopando dentro desses franzinos compêndios sem parar, gastando assim a vontade que o toma desde os tempos em que conheceu o tio Filipe, de falinha de azougue e natureza velada. Mas chamado por um negócio vantajoso, desses raríssimos acasos que só se topa uma vez em toda a vida, Coriolano fecha a livralhada, que é muito difícil conciliar leitura com algum trabalho duro que se converte em dinheiro, e se volta a montar um fabrico de bombom de mel de abelha, facilitado pelos cachos e ramadas de flores que cobriam as matas da redondeza, onde os ocos dos paus se lascavam transbordados, lambuzando os grossos troncos a canadas de bom mel. De forma que a coisa já nasceu de vento em popa!"
DANTAS, FRANCISCO J. C. Os Desvalidos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. Formato: ePub, posição 305.
DANTAS, FRANCISCO J. C. Os Desvalidos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. Formato: ePub, posição 305.
12 de setembro de 2019
Um Copo de Cólera
"Por uns momentos lá no quarto nós parecíamos dois estranhos que seriam observados por alguém, e este alguém éramos sempre eu e ela, cabendo aos dois ficar de olho no que eu ia fazendo, e não no que ela ia fazendo, por isso eu me sentei na beira da cama e fui tirando calmamente meus sapatos e minhas meias, tomando os pés descalços nas mãos e sentindo-os gostosamente úmidos como se tivessem sido arrancados à terra naquele instante, e me pus em seguida, com propósito certo, a andar pelo assoalho, simulando motivos pequenos pra minha andança no quarto, deixando que a barra da calça tocasse ligeiramente o chão ao mesmo tempo que cobria parcialmente meus pés com algum mistério, sabendo que eles, descalços e muito brancos, incorporavam poderosamente minha nudez antecipada, e logo eu ouvia suas inspirações fundas ali junto da cadeira, onde ela quem sabe já se abandonava ao desespero, atrapalhando-se ao tirar a roupa, embaraçando inclusive os dedos na alça que corria pelo braço, e eu, sempre fingindo, sabia que tudo aquilo era verdadeiro, conhecendo, como conhecia, esse seu pesadelo obsessivo por uns pés, e muito especialmente pelos meus, firmes no porte e bem feitos na escultura, um tanto nodosos nos dedos, além de marcados nervosamente no peito por veias e tendões, sem que perdessem contudo o jeito tímido de raiz tenra, e eu ia e vinha com meus passos calculados, dilatando sempre a espera com mínimos pretextos, mas assim que ela deixou o quarto e foi por instantes até o banheiro, tirei rápido a calça e a camisa, e me atirando na cama fiquei aguardando por ela já teso e pronto, fruindo em silêncio o algodão do lençol que me cobria, e logo eu fechava os olhos pensando nas artimanhas que empregaria (das tantas que eu sabia), e com isso fui repassando sozinho na cabeça as coisas todas que fazíamos, de como ela vibrava com os trejeitos iniciais da minha boca e o brilho que eu forjava nos meus olhos, onde eu fazia aflorar o que existia em mim de mais torpe e sórdido, sabendo que ela arrebatada pelo meu avesso haveria sempre de gritar "é este canalha que eu amo", e repassei na cabeça esse outro lance trivial do nosso jogo, preâmbulo contudo de insuspeitadas tramas posteriores, e tão necessário como fazer avançar de começo um simples peão sobre o tabuleiro, e em que eu, fechando minha mão na sua, arrumava-lhe os dedos, imprimindo-lhes coragem, conduzindo-os sob meu comando aos cabelos do meu peito, até que eles, a exemplo dos meus próprios dedos debaixo do lençol, desenvolvessem por si só uma primorosa atividade clandestina, ou então, em etapa adiantada, depois de criteriosamente vasculhados nossos pêlos, caroços e tantos cheiros, quando os dois de joelhos medíamos o caminho mais prolongado de um único beijo, nossas mãos em palma se colando, os braços se abrindo num exercício quase cristão, nossos dentes mordendo ao outro a boca como se mordessem a carne macia do coração, e de olhos fechados, largando a imaginação nas curvas desses rodeios, me vi também às voltas com certas práticas, fosse quando eu em transe, e já soberbamente soerguido da sela do seu ventre, atendia precoce a um dos seus (dos meus) caprichos mais insólitos, atirando em jatos súbitos e violentos o visgo leitoso que lhe aderia à pele do rosto e à pele dos seios, ou fosse aquela outra, menos impulsiva e de lenta maturação, o fruto se desenvolvendo num crescendo mudo e paciente de rijas contrações, e em que eu dentro dela, sem nos mexermos, chegávamos com gritos exasperados aos estertores da mais alta exaltação, e pensei ainda no salto perigoso do reverso, quando ela de bruços me oferecia generosamente um outro pasto, e em que meus braços e minhas mãos, simétricos e quase mecânicos, lhe agarravam por baixo os ombros, comprimindo e ajustando, área por área, a massa untada dos nossos corpos, e ia pensando sempre nas minhas mãos de dorso largo, que eram muito usadas em toda essa geometria passaional, tão bem elaborada por mim e que a levava invariavelmente a dizer em franca perdição "magnífico, magnífico, você é especial", e eu daí entrei pensando nos momentos de renovação, nos cigarros que fumávamos seguindo a cada bolha envenenada de silêncio, quando não fosse ao correr das conversas com café da térmica (escapávamos da cama nus e íamos profanar a mesa da cozinha), e em que ela tentava me descrever sua confusa experiência do gozo, falando sempre da minha segurança e ousadia na condução do ritual, mal escondendo o espanto pelo fato de eu arrolar insistentemente o nome de Deus às minhas obscenidades, me falando sobretudo do quanto eu lhe ensinei, especialmente da consciência no ato através dos nossos olhos que muitas vezes seguiam, pedra por pedra, os trechos todos de uma estrada convulsionada, e era então que eu falava da inteligência dela, que sempre exaltei como a sua melhor qualidade na cama, uma inteligência ágil e atuante (ainda que só debaixo dos meus estímulos), excepcionalmente aberta a todas as incursões, e eu de enfiada acabava falando também de mim, fascinando-a com as contradições intencionais (algumas nem tanto) do meu caráter, ensinando entre outras balelas que eu canalha era puro e casto, e eu ali, de olhos sempre fechados, ainda pensava em muitas outras coisas enquanto ela não vinha, já que a imaginação é muito rápida ou o tempo dela diferente, pois trabalha e embaralha simultaneamente coisas díspares e insuspeitadas, quando pressenti seus passos de volta no corredor, e foi então só o tempo de eu abrir os olhos pra inspecionar a postura correta dos meus pés despontando fora do lençol, dando conta como sempre de que os cabelos castanhos, que brotavam no peito e nos dedos mais longos, lhes davam graça e gravidade ao mesmo tempo, mas tratei logo de fechar de novo os olhos, sentindo que ela ia entrar no quarto, e já adivinhando seu vulto ardente ali por perto, e sabendo como começariam as coisas, quero dizer: que ela de mansinho, muito de mansinho, se achegaria primeiro dos meus pés, que ela um dia comparou com dois lírios brancos."
NASSAR, Raduan. 1935-. Um Copo de Cólera. 1.ed. 1978.
7 de janeiro de 2019
O Crime de Sylvestre Bonnard
"- Quantos livros! - exclamou. - E o senhor leu todos, senhor Bonnard?
- Pobre de mim, li! - respondi. - E é por isso que nada sei, porque não há um único desses livros que não desminta o outro, de modo que, quando os conhecemos todos, não se sabe o que pensar. Estou nessa situação, senhora."
ANATOLE FRANCE (Anatole François Thibault), "O crime de Sylvestre Bonnard" (Le Crime de Sylvestre Bonnard), França, 1881.
- Pobre de mim, li! - respondi. - E é por isso que nada sei, porque não há um único desses livros que não desminta o outro, de modo que, quando os conhecemos todos, não se sabe o que pensar. Estou nessa situação, senhora."
ANATOLE FRANCE (Anatole François Thibault), "O crime de Sylvestre Bonnard" (Le Crime de Sylvestre Bonnard), França, 1881.
3 de janeiro de 2019
O Homem de Marte
"Ah! Ah! Que sorte! Que felicidade! Que alívio! Mas como pude duvidar do senhor? Um homem não seria inteligente se não acreditasse que os mundos são habitados. É preciso ser um tolo, um cretino, um idiota, um estúpido, para supor que os milhares de universos brilham e giram unicamente para divertir e maravilhar o homem, este inseto imbecil, para não compreender que a Terra é apenas uma poeira invisível na poeira dos mundos, que o nosso sistema não passa de algumas moléculas de vida sideral que morrerão em breve. Veja a Via Láctea, esse rio de estrelas, e pense que é apenas uma mancha na extensão que é o infinito. Pense nisso somente por dez minutos e compreenderá por que não sabemos nada, não deciframos nada, nem compreendemos nada. Só conhecemos um ponto, não sabemos nada para além dele, nada fora ele, nada de parte alguma, e acreditamos, e afirmamos. Ah! ah! ah! Se de repente nos fosse revelado esse grande segredo da vida extraterrestre, que assombro! Mas não... Mas não... sou um estúpido também, não o compreenderíamos, porque o nosso espírito só foi feito para compreender as coisas dessa Terra: ele não pode ir mais longe, é limitado, como a nossa vida, preso a esta pequena bola que nos transporta, e julga tudo por comparação. Veja, portanto, como todo mundo é tolo, limitado e convencido do poder da nossa inteligência que mal ultrapassa o instinto dos animais. Não temos nem mesmo a faculdade de perceber a nossa imperfeição, somos feitos para saber o preço da manteiga e do trigo e, no máximo, para discutir sobre o valor de dois cavalos, de dois barcos, de dois ministros ou de dois artistas.
É tudo. Somos aptos apenas para cultivar a terra e nos servir desajeitadamente do que existe sobre ela. Mal começamos a construir máquinas que andam, ficamos admirados como crianças a cada descoberta que deveríamos ter feito há séculos, se fôssemos seres superiores. Ainda estamos cercados pelo desconhecido, mesmo neste momento em que foram necessários milhares de anos de vida inteligente para entrever a eletricidade. Somos da mesma opinião?"
GUY DE MAUPASSANT, Henri-René-Albert, conto "O Homem de Marte" (L'Homme de Mars), França, publicado em 1889.
É tudo. Somos aptos apenas para cultivar a terra e nos servir desajeitadamente do que existe sobre ela. Mal começamos a construir máquinas que andam, ficamos admirados como crianças a cada descoberta que deveríamos ter feito há séculos, se fôssemos seres superiores. Ainda estamos cercados pelo desconhecido, mesmo neste momento em que foram necessários milhares de anos de vida inteligente para entrever a eletricidade. Somos da mesma opinião?"
GUY DE MAUPASSANT, Henri-René-Albert, conto "O Homem de Marte" (L'Homme de Mars), França, publicado em 1889.
12 de setembro de 2018
Os Ouvidos do Conde de Chesterfield e do Capelão Goudman
"-Sempre observei que todos os negócios deste mundo dependem da opinião e da vontade de uma principal personagem, seja o rei, ou o primeiro-ministro, ou alto funcionário. Ora, essa opinião e essa vontade são o efeito imediato da maneira como os espíritos animais se filtram no cérebro e daí até a medula alongada; esses espíritos animais dependem da circulação do sangue; esse sangue depende da formação do quilo; esse quilo elabora-se na rede do mesentério; esse mesentério acha-se ligado ao intestino por filamentos muito delgados; esses intestinos, se assim me é permitido dizer, estão cheios de merda. Ora, apesar das três fontes túnicas de que cada intestino está revestido, é tudo perfurado como uma peneira; pois tudo na natureza é arejado, e não há grão de areia, por imperceptível que seja, que não tenha mais de quinhentos poros. Poder-se-ia fazer passar mil agulhas através de uma bala de canhão, se as conseguíssemos bastante finas e bastante fortes. Que acontece então a um homem com prisão de ventre? Os elementos mais tênues, mais delicados de sua merda se misturam ao quilo nas veias de Asellius, vão à veia-porta e ao reservatório de Pecquet; passam para a subclávia; penetram no coração do homem mais galante, da mulher mais faceira. É uma orvalhada de bosta que se lhe espalha por todo o corpo. Se esse orvalho inunda os parênquimas, os vasos e as glândulas de um atrabiliário, o seu mau humor transforma-se em ferocidade; o branco de seus olhos se torna de um sombrio ardente; seus lábios colam-se um ao outro; a cor do rosto assume tonalidades baças. Ele parece que vos ameaça; não vos aproximeis; e, se for um ministro de estado, guardai-vos de lhe apresentar um requerimento. Todo e qualquer papel, ele só o considera como um recurso de que bem desejaria lançar mão, segundo o antigo e abominável costume dos europeus. Informai-vos habilmente de seu criado se Sua Senhoria defecou pela manhã."
VOLTAIRE, François-Marie Arouet, conto "Os Ouvidos do Conde de Chesterfield e do Capelão Goudman", publicado no livro Escritos Avulsos Atribuídos a Diversos Homens Célebres, 1775.
VOLTAIRE, François-Marie Arouet, conto "Os Ouvidos do Conde de Chesterfield e do Capelão Goudman", publicado no livro Escritos Avulsos Atribuídos a Diversos Homens Célebres, 1775.
4 de julho de 2018
A Fugitiva
"Enquanto isso, relia sua carta e, apesar de tudo, me sentia decepcionado com o pouco que uma carta contém de uma pessoa. Sem dúvida, as letras traçadas exprimem nosso pensamento, como também o fazem nossos traços fisionômicos: é sempre diante de um pensamento que nos encontramos. Mas, apesar de tudo, na pessoa, o pensamento só nos aparece depois de se haver difundido nessa corola do rosto desabrochado como um nenúfar. Isso, afinal de contas, o modifica muito. E, talvez, uma das causas de nossas perpétuas decepções em amor esteja nesses perpétuos desvios que fazem com que, à espera da pessoa ideal a quem amamos, cada encontro nos traga, em resposta, uma pessoa de carne em que já existe tão pouco do nosso sonho. Depois, quando reclamamos algo dessa pessoa, dela recebemos uma carta em que da pessoa mesma resta muito pouco, tal como, nas letras de álgebra, já não existe a determinação das cifras da aritmética, as quais, por sua vez, não encerram mais as propriedades das flores ou dos Frutos somados. E contudo, o amor, a criatura amada, suas cartas, são talvez, afinal de contas, traduções (por menos satisfatório que seja passar de uma a outra) da mesma realidade, pois essa carta que nos parece insuficiente quando a lemos, nós suamos frio enquanto ela não chegava, e basta para acalmar nossa angústia, quando não para saciar, com seus sinaizinhos negros, nosso desejo que sabe muito bem que ali só existe, apesar de tudo, a equivalência de uma palavra, de um sorriso, de um beijo, e não realmente essas coisas."
PROUST, Marcel, A Fugitiva (Albertine Disparue), França, 1927.
PROUST, Marcel, A Fugitiva (Albertine Disparue), França, 1927.
28 de dezembro de 2017
À Sombra das Raparigas em Flor
"Aqueles jovens Bergotte - o futuro escritor e seus irmãos e irmãs - não eram decerto superiores, antes pelo contrário, a outros jovens mais finos, mais espirituosos, que achavam os Bergotte muito barulhentos, até mesmo um pouco vulgares, irritantes com as suas brincadeiras características do 'gênero' metade pretensioso, metade simplório, da casa. Mas o gênio, e mesmo o grande talento, provém menos de elementos intelectuais e de afinamento social superiores aos alheios, que da faculdade de os transformar, de os transportar. Para aquecer um líquido com uma lâmpada elétrica, não se deve conseguir a lâmpada mais forte possível, mas uma cuja corrente possa deixar de iluminar, ser desviada e produzir, em vez de luz, calor. Para passear pelos ares, não é necessário ter o automóvel mais possante, mas um automóvel que, deixando de correr por terra e, cortando com uma vertical a linha que seguia, seja capaz de converter em força ascensional a sua velocidade horizontal. Assim, os que produzem obras geniais não são aqueles que vivem no meio mais delicado, que têm a conversação mais brilhante, a cultura mais extensa, mas os que tiveram o poder, deixando subitamente de viver para si mesmos, de tornar a sua personalidade igual a um espelho, de tal modo que a sua vida aí se reflete, por mais medíocre que pudesse ser mundanamente e até, em certo sentido, intelectualmente falando, pois o gênio consiste no poder refletor e não na qualidade intrínseca do espetáculo refletido. No dia em que o jovem Bergotte pôde mostrar ao mundo de seus leitores o salão de mau gosto em que passara a infância e as conversas não muito divertidas que ali tivera com seus irmãos, nesse dia ele subiu mais alto que os amigos de sua família que eram mais espirituosos e mais distintos: estes, nos seus belos Rolls-Royce, poderiam voltar pra casa testemunhando certo desprezo pela vulgaridade dos Bergotte; mas ele, no seu modesto aparelho que afinal acabava de 'decolar', sobrevoava-os."
PROUST, Marcel, À Sombra das Raparigas em Flor (À L'ombre Des Jeunes Filles en Fleur), França, 1919.
PROUST, Marcel, À Sombra das Raparigas em Flor (À L'ombre Des Jeunes Filles en Fleur), França, 1919.
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