3 de novembro de 2009

Introdução a uma Verdadeira História do Cinema

"Hoje acho que um filme não deve ser feito sempre com os mesmos motivos... e é por isso que não é preciso fazê-los sempre da mesma maneira. Hoje em dia, o fato de haver o vídeo, os filmes de amador, ou uma infinidade de coisas... pode-se fazer... Já não é verdade que um filme custa caro; alguns filmes custam caro, outros são baratos; e, às vezes, certos momentos de filmes não precisam ser filmes, do mesmo modo que, com as frases que a gente diz no decorrer do dia, não tentamos fazer um romance; isto faz parte do romance da nossa vida, mas não tentamos fazer com que a frase que dizemos ao comprar um quilo de carne ou ao tomar um táxi... que tudo isso componha um todo harmonioso e depois a gente diga à tarde: 'Oh, que bela obra eu fiz hoje!' A mesma coisa acontece com os filmes, isso vale para eles."

GODARD, Jean-Luc, 1930-. Introdução a uma Verdadeira História do Cinema, França, 1980.

20 de outubro de 2009

Qualquer Ferro Velho

"O próprio governador de Gibraltar lhe dissera que não era coisa que se fizesse beber com estranhos em bares estrangeiros e depois apunhalá-los em vielas escuras. Mesmo na guerra total tinha-se de respeitar as regras do jogo. Então havia uma diferença, havia, entre guerra e assassinato? Certamente que sim. A essência da guerra moderna era que você matasse à distância, anonimamente e sem animosidade imediata. Você matava, ou ordenava que matassem com espírito generoso, e sustentava a generosidade de espírito por não ter consciência direta da agonia e posterior desaparecimento de sua vítima. A história da guerra, como da própria civilização, da qual a guerra era um aspecto, era a história de um crescente distanciamento e anonimato. Será que o sargento Jones pensava que as valentes tripulações dos bombardeiros de saturação que tão poderosamente esmigalharam casas de velhos e enfermeiras de maternidades seriam capazes de continuar suas missões heróicas se realmente testemunhassem os seres humanos em vez dos resultados estratégicos de suas devastações?"

BURGESS, Anthony, 1917-1993. Qualquer Ferro Velho (Any Old Iron), Inglaterra, 1987.

24 de setembro de 2009

Tônio Kroeger

"Nesta noite levou consigo sua imagem, com a loura e grossa trança, com os olhos azuis, oblíquos e risonhos, com um selim de sardas, delicadamente marcado, sobre o nariz, e não conseguiu dormir porque ouvia o som de sua voz, tentava baixinho imitar a entonação com a qual pronunciava a palavra e ao fazê-lo sentia-se arrepiar. A experiência fê-lo saber que era o amor, apesar de ter certeza que o amor deveria trazer-lhe muita dor, tormentos e humilhações, e que além disso destruía a paz e deixava o coração transbordar com melodias sem que se encontrasse sossego para dar forma a alguma coisa e tranqüilamente forjar uma peça inteiriça. Assim mesmo aceitava-o, entregava-se completamente e zelava por ele com as forças de sua alma, pois sabia que o amor enriquecia e dava vida e ele ansiava por ser rico e vivo em vez de na tranqüilidade forjar algo concreto..."

MANN, Thomas. Tônio Kroeger, Alemanha, 1903.

14 de setembro de 2009

Os Buddenbrook

"A consulesa, apoiada em várias almofadas, encontrava-se de costas. As mãos, essas belas mãos, entremeadas por veias de um azul pálido, e que agora pareciam tão magras, definhadas por completo, acariciavam a colcha, incessante e apressadamente, numa precipitação trêmula. A cabeça, coberta por uma touca branca, virava-se sem interrupção, em horripilante ritmo pendular. A boca, cujos lábios pareciam ser puxados para dentro, abria-se e fechava-se bruscamente, a cada uma das penosas tentativas de respiração. Os olhos encovados vagavam em busca de socorro, para, de quando em vez, se fitarem com expressão comovente de inveja numa das pessoas presentes que estavam vestidas e podiam respirar, que pertenciam à vida e que nada mais sabiam senão fazer o sacrifício amoroso de manter o olhar cravado nesse quadro. E a noite avançava sem que houvesse uma alteração."

MANN, Thomas, 1875-1956. Os Buddenbrook (Decadência Duma Família), Alemanha, 1901.

18 de agosto de 2009

Notas do Subsolo

"Em algumas ocasiões, era tão horrível para mim ir à repartição que eu chegava ao ponto de, muitas vezes, voltar doente do trabalho. Mas, de repente, sem mais nem menos, começava uma fase de ceticismo e indiferença (comigo tudo acontecia em fases), e eu mesmo começava a rir de minha intolerância e minhas aversões e censurava a mim mesmo pelo meu romantismo. Num determinado momento, não queria falar com ninguém; em outro, não só procurava conversa com alguém, como até mesmo decidia tornar-me seu amigo. De repente, sem mais nem menos, toda a aversão desaparecia. Quem sabe ela nunca tivesse existido realmente em mim, e fosse apenas pose tirada dos livros? Até agora não solucionei essa questão."

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Notas do Subsolo. Rússia, 1864.

5 de agosto de 2009

Esboço para uma Teoria das Emoções

"Essa 'assunção' de si que caracteriza a realidade humana implica uma compreensão da realidade humana por ela mesma, por obscura que seja esta compreensão. 'No ser desse existente, ele se relaciona ele próprio com seu ser.' É que, de fato, a compreensão não é uma qualidade vinda de fora à realidade humana, é sua própria maneira de existir. Assim, a realidade humana que é eu assume seu próprio ser ao compreendê-lo. Essa compreensão é a minha. Portanto, sou antes de qualquer coisa um ser que compreende mais ou menos obscuramente sua realidade de homem, o que significa que me faço homem ao compreender-me como tal. Posso então me interrogar e, sobre as bases dessa interrogação, levar a cabo uma análise da 'realidade-humana', que poderá servir de fundamento a uma antropologia. Aqui tampouco, naturalmente, não se trata de introspecção, primeiro porque a introspecção só depara com o fato, depois porque minha compreensão da realidade humana é obscura e inautêntica. Ela deve ser explicitada e corrigida. Em todo caso, a hermenêutica da existência vai poder fundar uma antropologia e essa antropologia servirá de base a toda psicologia. Assim estamos na situação inversa da dos psicólogos, uma vez que partimos dessa totalidade sintética que é o homem e estabelecemos a essência do homem antes de estrear em psicologia."

SARTRE, Jean-Paul. 1905-1980. Esboço para uma teoria das emoções / Jean-Paul Sartre; tradução de Paulo Neves. - Porto Alegre: L&PM, 2008.

2 de agosto de 2009

Trilogia Suja de Havana

"Esse era o meu problema e o meu desafio: aprender a viver e a desfrutar dentro de mim. E a questão não é simples: hindus, chineses, japoneses, todos os que têm culturas milenares, dedicam boa parte do seu tempo a desenvolver filosofias e técnicas de vida interior. Mesmo assim, todo ano se suicidam no mundo uns tantos milhares de pessoas, esmagadas por sua própria solidão. E não é que o sujeito escolha ficar sozinho. É que, pouco a pouco, vai-se ficando sozinho. E não há remédio. É preciso resistir. Chega-se a uma imensa planície deserta e não se sabe que porra fazer. Muitas vezes se pensa que o melhor é não pensar muito em si mesmo e na maldita solidão, que fica mais aguda quando se está isolado e em silêncio. Bom, pois é preciso entrar em ação. E a gente sai por aí. Em busca de um amigo ou de uma mulher que nos dê um pouco de sexo. Não sei."

GUTIERREZ, Pedro Juan. Trilogia Suja de Havana. Cuba, 1998.

27 de julho de 2009

That Sacred Closet Entitled Memory

"That sacred Closet when you sweep -
Entitled 'Memory' -
Select a reverential Broom -
And do it silently.

'Twill be a Labor of surprise -
Besides Identity
Of other Interlocutors
A probability.

August the Dust of that Domain -
Unchallenged - let it lie -
You cannot supersede itself
But it can silence you -"

"Ao varrer o sagrado desvão
Denominado Memória,
Escolhe uma vassoura reverente
E faz em silêncio teu trabalho.

Será um labor de surpresas -
Além da própria identidade,
Outros interlocutores
São uma possibilidade.

Nesses domínios é nobre a poeira,
Deixe que repouse intocada -
Não tens como removê-la,
Mas ela pode silenciar-te."

DICKINSON, Emily. 1830-1886. Poemas escolhidos / Emily Dickinson; tradução de Ivo Bender. - Porto Alegre: L&PM, 2007.

19 de julho de 2009

A Morte de Ivan Ilitch

"Era de manhã. Ele sabia que era de manhã unicamente porque Guerássim se fora e o criado Piotr viera apagar as velas, levantar as cortinas e silenciosamente começar a arrumação do quarto. Fosse manhã ou noite, sexta-feira ou domingo, não haveria diferença, tudo era igual para Ivan Ilitch: a dor surda, implacável, incessante; a sensação de que a vida não parava de fugir; a certeza de que a odiosa e temida morte se aproximava como a única realidade; e sempre a mesma mentira. Que importância tinham, portanto, as semanas, os dias, as horas?".

TOLSTOI, Liev. 1828-1910. A Morte de Ivan Ilitch. Rússia, 1886.