"'Pois bem', acrescentou Julien tristemente, mas sem cólera, 'apesar de sua avareza, o meu pai vale mais do que todos esses homens. Ele nunca me estimou. E eu acabo de encher-lhe as medidas, desonrando-o com uma morte infamante. Esse temor de não ter dinheiro, esse conceito exagerado da maldade dos homens, à que se chama avareza, faz com que ele veja um prodigioso motivo de consolação e de segurança numa soma de trezentos ou quatrocentos luízes que eu lhe possa deixar. Um domingo, depois do jantar, ele mostrará o seu ouro a todos que o invejam em Verrières. Por tal preço, dirá o seu olhar, qual de vós não ficaria encantado em ter um filho guilhotinado?'."
STENDHAL. 1783-1842. O Vermelho e o Negro. França: 1832.
28 de maio de 2009
29 de abril de 2009
A religiosa
"Fazer voto de pobreza é dedicar-se por juramento a ser preguiçoso e ladrão; fazer voto de castidade é prometer a Deus a infração constante da mais bela e mais importante de suas leis; fazer voto de obediência é renunciar à prerrogativa inalienável do homem, a liberdade. Quando se observam esses votos, é-se criminoso; quando não se observam, é-se perjuro. A vida claustral é a de um fanático ou a de um hipócrita".
DIDEROT, Denis. 1713-1784. A religiosa. França: 1796.
DIDEROT, Denis. 1713-1784. A religiosa. França: 1796.
6 de abril de 2009
A República
"Sócrates - Exatamente por isso os homens honestos não querem assumir o governo nem por dinheiro nem por honrarias. Na realidade, não querem ser considerados mercenários que exigem abertamente um salário, nem querem ser considerados ladrões ao tirá-lo de modo secreto de seu encargo. Como não são ambiciosos, não querem também governar pelas honrarias. Para induzí-los a isso, é preciso forçá-los e puní-los. Isso decorre talvez do fato de achar desonroso chegar ao poder por própria iniciativa, sem esperar ser compelido a isso. Mas o castigo supremo consiste em ser governados por quem é moralmente inferior, no caso em que o cidadão honesto não queira assumir o poder. É o temor desse castigo que, segundo minha opinião, impele os melhores a governar, se necessário. E então eles chegam ao poder não como em direção a alguma coisa de bom, nem para nele permanecer comodamente, mas como em direção a um dever inevitável, porque não podem confiar suas funções a pessoas melhores ou pelo menos iguais a eles. Se o Estado fosse composto de homens honestos, talvez haveria uma corrida para não governar, exatamente ao contrário do que acontece agora. Assim, seria evidente que o verdadeiro governante não visa por natureza seu interesse pessoal, mas o dos súditos. Todo homem sensato, porém, preferiria receber vantagens de outros, do que empenhar-se ele próprio para o interesse de outrem. De qualquer modo, não admito de maneira alguma que a justiça, como diz Trasímaco, seja o interesse do mais forte. Este ponto, contudo, o veremos melhor a seguir. Parece-me muito mais importante o que Trasímaco disse há pouco, isto é, que a existência do homem injusto é melhor do que aquela do justo. E você, Glauco, que tese escolheria? Qual das duas lhe parece mais verdadeira?"
PLATÃO. 428/27–347 a.C. A República. São Paulo: Editora Escala, 2007.
PLATÃO. 428/27–347 a.C. A República. São Paulo: Editora Escala, 2007.
2 de abril de 2009
Elingoso Hidalgo Don Quixote De La Mancha
"Yace aquí el hidalgo fuerte
que a tanto extremo llegó
de valiente, que se advierte
que la muerte no triunfó
de su vida con su muerte.
Tuvo a todo el mundo en poco,
fue el espantajo y el coco
del mundo, en tal coyuntura,
que se acreditó su ventura
morir cuerdo y vivir loco."
CERVANTES, Miguel De. 1547-1616. Elingoso Hidalgo Don Quixote De La Mancha. São Paulo: Real Academia Española / Asociación de Academias de la Lengua Española, 2004.
que a tanto extremo llegó
de valiente, que se advierte
que la muerte no triunfó
de su vida con su muerte.
Tuvo a todo el mundo en poco,
fue el espantajo y el coco
del mundo, en tal coyuntura,
que se acreditó su ventura
morir cuerdo y vivir loco."
"Jaz aqui o fidalgo forte
que a tal denodo chegou
que se descubra e se exorte
que a morte não triunfou
de sua vida com sua morte.
Teve o mundo inteiro em pouco;
foi o espantalho e o coco
do mundo, em tal conjuntura,
que abonou sua aventura
morrer cordo e viver louco."
CERVANTES, Miguel De. 1547-1616. Elingoso Hidalgo Don Quixote De La Mancha. São Paulo: Real Academia Española / Asociación de Academias de la Lengua Española, 2004.
20 de março de 2009
A insustentável leveza do ser
"Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso o que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo 'esboço' não é a palavra certa, porque um esboço é sempre o projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro".
KUNDERA, Milan. A Insustentável Leveza do Ser, 1983.
KUNDERA, Milan. A Insustentável Leveza do Ser, 1983.
3 de março de 2009
Homem no escuro
"Uma manhã, na primavera de 1987, sua empregada me telefonou num estado de quase-histeria. Tinha acabado de entrar no apartamento de Betty, usando a chave que recebera para a limpeza semanal, e encontrou minha irmã deitada na cama. Peguei emprestado o carro do vizinho, dirigi até Nova Jersey e identifiquei o corpo para a polícia. O choque de ver Betty daquele jeito: tão imóvel, tão longe, tão terrivelmente, terrivelmente morta. Quando me perguntaram se eu queria que o hospital fizesse uma autópsia, respondi que não precisava. Só havia duas possibilidades. Ou seu corpo tinha parado de funcionar, ou Betty tinha tomado pílulas, e eu não queria saber a resposta, pois nenhuma das duas coisas contaria a história verdadeira. Betty morreu porque estava com o coração partido. Algumas pessoas riem quando escutam essa frase, mas isso é porque elas não conhecem nada do mundo. Pessoas morrem porque estão com o coração partido. Acontece todo dia e vai continuar a acontecer, até o fim dos tempos".
AUSTER, Paul. Homem no Escuro, Companhia das Letras, 2008.
AUSTER, Paul. Homem no Escuro, Companhia das Letras, 2008.
2 de maio de 2008
O casamento do céu e do inferno
"Sem contrários não há evolução. Atração e Repulsão, Razão e Energia, Amor e Ódio são necessários à existência Humana. Destes contrários nasce aquilo que o religioso denomina Bem & Mal. O Bem é o passivo que obedece a Razão. O Mal é o ativo que surge da Energia. Bem é Céu. Mal é Inferno."
BLAKE, William. 1757-1827. O casamento do céu e do inferno & outros escritos / William Blake; tradução de Alberto Marsicano. - Porto Alegre: L&PM, 2007.
BLAKE, William. 1757-1827. O casamento do céu e do inferno & outros escritos / William Blake; tradução de Alberto Marsicano. - Porto Alegre: L&PM, 2007.
23 de março de 2008
Eu, o homem cotidiano
"Abri as portas do mundo
E esbravejei: "Estou aqui!"
O mundo me olhou sorrindo
Me respondeu: "E daí?"
Vai se virando, meu filho,
Que voltas já dou sem fim
Girando em torno do Sol
Girando em torno de mim."
TAVARES, Ildásio.
E esbravejei: "Estou aqui!"
O mundo me olhou sorrindo
Me respondeu: "E daí?"
Vai se virando, meu filho,
Que voltas já dou sem fim
Girando em torno do Sol
Girando em torno de mim."
TAVARES, Ildásio.
3 de fevereiro de 2008
I dwell in Possibility
"I dwell in Possibility
A fairer House than Prose -
More numerous of Windows -
Superior - for Doors -
Of Chambers as the Cedars -
Impregnable of Eye -
And for an Everlasting Roof
The Gambrels of the Sky -
Of Visitors - the fairest -
For Occupation - This -
The spreading wide my narrow Hands
To gather Paradise -"
DICKINSON, Emily. 1830-1886. Poemas escolhidos / Emily Dickinson; tradução de Ivo Bender. - Porto Alegre: L&PM, 2007.
A fairer House than Prose -
More numerous of Windows -
Superior - for Doors -
Of Chambers as the Cedars -
Impregnable of Eye -
And for an Everlasting Roof
The Gambrels of the Sky -
Of Visitors - the fairest -
For Occupation - This -
The spreading wide my narrow Hands
To gather Paradise -"
"Moro na possibilidade,
Casa mais bela que a prosa,
Com muito mais janelas
E bem melhor, pelas portas
De aposentos inacessíveis,
Como são, para o olhar, os cedros,
E tendo por forro perene
Os telhados do céu.
Visitantes, só os melhores
Por ocupação, só isto:
Abrir amplamente minhas mãos estreitas
Para agarrar o paraíso."
DICKINSON, Emily. 1830-1886. Poemas escolhidos / Emily Dickinson; tradução de Ivo Bender. - Porto Alegre: L&PM, 2007.
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