20 de novembro de 2007

Areia nos olhos

"Dêm-me a possibilidade de ser diferente, de ser exótico, de ser precursor, e verão como eu consigo ser tão igual e insignificante como os outros."

FERNANDO, Santos. 1927-1975. Areia nos Olhos. Lisboa: Editorial Organizações, 1962.

Areia nos olhos

"Sinalizai bem o raciocínio. As idéias chocam como os automóveis, e não há seguro para as avarias do pensamento."

FERNANDO, Santos. 1927-1975. Areia nos Olhos. Lisboa: Editorial Organizações, 1962.

17 de novembro de 2007

A propriedade é um roubo

"Ser governado significa ser observado, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, cercado, doutrinado, admoestado, controlado, avaliado, censurado, comandado; e por criaturas que para isso não tem o direito, nem a sabedoria, nem a virtude. Ser governado significa que todo movimento, operação ou transação que realizamos é anotada, registrada, catalogada em censos, taxada, selada, avaliada monetariamente, patenteada, licenciada, autorizada, recomendada ou desaconselhada, frustrada, reformada, endireitada, corrigida. Submeter-se ao governo significa consentir em ser tributado, treinado, redimido, explorado, monopolizado, extorquido, pressionado, mistificado, roubado; tudo isso em nome da utilidade pública e do bem comum. Então, ao primeiro sinal de resistência, à primeira palavra de protesto, somos reprimidos, multados, desprezados, humilhados, perseguidos, empurrados, espancados, garroteados, aprisionados, fuzilados, metralhados, julgados, sentenciados, deportados, sacrificados, vendidos, traídos e, para completar, ridicularizados, escarnecidos, ultrajados e desonrados. Eis o governo, eis a sua moral, eis a sua justiça!"

PROUDHON, Pierre-Joseph. 1809-1865. A propriedade é um roubo.

16 de novembro de 2007

Cidadania: uma questão para a educação

"(...) A Educação para a cidadania passa por ajudar o aluno a não ter medo do poder do Estado, a aprender a exigir dele as condições de trocas livres de propriedade, e finalmente a não ambicionar o poder como a forma de subordinar seus semelhantes. Esta pode ser a cidadania crítica que almejamos. Aquele que esqueceu suas utopias, sufocou suas paixões e perdeu a capacidade de se indignar diante de toda e qualquer injustiça social não é um cidadão, mas também não é um marginal. É apenas um NADA que a tudo nadifica."

FERREIRA, Nilda Tevês. Cidadania: uma questão para a educação. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.

21 de outubro de 2007

Play Power

"Deve ser reafirmado que a criação de uma contracultura, em si um acontecimento não planejado, casual e imprevisível, tem profundas implicações políticas. Porque, enquanto o Sistema, com seu talento para sobrevivência, pode absorver políticas, não interessando o quanto radicais ou anarquistas sejam (abolição da censura, a saída do Vietnã, maconha legalizada etc.), por quanto tempo pode agüentar o impacto de uma cultura alienígena? - uma cultura que é destinada a criar um novo tipo de homem?"

NEVILLE, Richard. Play Power. Londres: Jonathan Cape, 1970.

8 de outubro de 2007

A Feiticeira

"É espantoso ver esses tempos tão diversos, esses homens de cultura diferente, sem conseguirem avançar um passo. Depois, compreende-se muito bem que uns e outros tenham ficado detidos, digamos mesmos cegos, irremediavelmente embriagados e mesmo feitos selvagens com o veneno de seu princípio. Príncipio que é o dogma da fundamental injustiça: "Todos perdidos, por um só, não apenas castigados, mas dignos de o serem, antecipadamente corrompidos e pervertidos, mortos para Deus antes mesmo de nascerem. A criança recém-nascida já é um condenado"."

MICHELET, Jules. 1798-1874. A feiticeira / Jules Michelet; tradução de Ana Moura. - São Paulo: Aquariana, 2003.

30 de setembro de 2007

História das idéias e movimentos anarquistas

"Todos os anarquistas contestam a autoridade e muitos lutam contra ela. Mas isso não significa que todos aqueles que contestam a autoridade e lutam contra ela devam ser considerados anarquistas. Do ponto de vista histórico, o anarquismo é a doutrina que propõe uma crítica à sociedade vigente; uma visão de sociedade ideal do futuro e os meios de passar de uma para a outra. A simples revolta irracional não faz de ninguém um anarquista, nem a rejeição do poder terreno com bases filosóficas ou religiosas. Os místicos e os estóicos não desejam a anarquia, mas um outro reino no céu. Sob o aspecto histórico, o anarquismo preocupa-se, basicamente, com o homem e sua relação com a sociedade. Seu objetivo final é sempre a transformação da sociedade; sua atitude no presente é sempre de condenação a essa sociedade, mesmo que essa condenação tenha origem numa visão individualista sobre a natureza do homem; seu método é sempre de revolta social, seja ela violenta ou não."

WOODCOCK, George. 1912-1995. História das idéias e movimentos anarquistas / George Woodcock; tradução de Júlia Tettamanzy. - Porto Alegre: L&PM, 2006.

17 de agosto de 2007

Versos íntimos

"Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo amigo é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!"

ANJOS, Augusto dos. 1884-1914. Eu. Rio de Janeiro: 1912.

14 de agosto de 2007

O morro dos ventos uivantes

"Gozava eu de um mês de bom tempo à beira-mar, quando travei relações com a mais fascinante das criaturas, para mim uma verdadeira deusa, tanto que nem conhecimento tomou de minha pessoa. "Nunca lhe confessei meu amor" de viva-voz. Mas se os olhos falam, o mais simplório dos imbecis poderia verificar que eu estava completamente louco de amor. Ela por fim compreendeu e por sua vez me lançou um olhar... o mais doce de todos os olhares imagináveis. Que fiz eu? Confesso-o para vergonha minha... encolhi-me friamente na minha timidez, como um caracol. A cada olhar, recolhia-me mais frio e mais distante, até que afinal a pobrezinha começou a duvidar de seus próprios sentidos, e, acabrunhada de confusão pelo seu suposto engano, persuadiu sua mamãe a mudar de pouso. Por causa deste curioso feitio meu, criei reputação de crueldade intencional, aliás, bem injusta, como só eu mesmo posso julgar."

BRONTË, Emily. 1818-1848. O morro dos ventos uivantes / Emily Brontë; tradução de Oscar Mendes. - São Paulo: Abril Cultural, 1979.