27 de dezembro de 2011

Os Sofrimentos do Jovem Werther

"Hoje fui lá afinar o cravo de Lotte, mas não pude fazê-lo porque as crianças não me deixaram por um segundo sequer, pedindo que eu lhes contasse um conto de fadas, e ela mesma pediu que as atendesse. Cortei-lhes o pão da merenda, que agora aceitam tanto de mim quanto de Lotte; depois contei a mais linda história, a de uma princesa que era servida por mãos encantadas. Aprendo muito com isso e fico admirado da impressão que tudo isso provoca neles. Se invento algum incidente e me esqueço de repeti-lo ao contar a história uma outra vez, eles me advertem de que, antes, contei de outro modo. Assim, sou forçado a manter um ritmo invariável, sem mudar coisa alguma, como se estivesse desfiando um rosário. Isso me convence de que um autor estraga a sua obra, revendo-a e corrigindo-a para uma segunda edição, pois ela nada ganha quanto ao conteúdo poético. A primeira impressão nos encontra em estado passivo, a tal ponto que o homem pode aceitar as coisas mais inverossímeis; e, como se fixam fortemente no seu espírito, ai de quem quiser depois arrancá-las ou destrui-las!"

GOETHE, Johann Wolfgang Von, 1749-1832. Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werthers), Alemanha, 1774.

27 de novembro de 2011

O Banheiro

"Existem duas maneiras de olhar a chuva cair, na minha casa, detrás de uma vidraça. A primeira é mantendo o olhar fixado num ponto qualquer do espaço e vendo a sucessão da chuva no lugar escolhido; esta maneira descansa o espírito mas não dá nenhuma idéia sobre a finalidade do movimento. A segunda, que exige da visão mais flexibilidade, consiste em seguir com os olhos a queda de uma só gota de cada vez, desde a sua entrada no campo de visão até a dispersão de sua água no solo. Assim é possível realizar que o movimento, por mais fulgurante que seja na aparência, tende essencialmente à imobilidade, e em conseqüência, por mais lento que possa às vezes parecer, arrasta continuamente os corpos para a morte, que é imobilidade. Olé."

TOUSSAINT, Jean-Philippe, 1957. O Banheiro (La Salle de Bain), Bélgica/França, 1985.

30 de outubro de 2011

Ulisses

"Marido cambaleando de bebedeira, tresandando a botequim como gambá. Ter isso nariz adentro no escuro, baforadas de ressaca de pileque. Depois perguntam pela manhã: eu estava bêbado de noite? Má política entretanto culpar o marido. Brotam como frangotes em poleiros. Ligam-se uns depois dos outros como cola. Talvez culpa da mulher também. Aí é que Molly soube tirar o corpo. É o sangue do sul. Moura. Também a forma, a aparência. Mãos palpavam pela opulência. E comparar por exemplo com essas outras. Mulher trancada em casa, esqueleto em armário. Permita-me apresentar minha. Então te põem pela frente uma espécie de indefinido, não se saberia como chamar. Ver o ponto fraco de um sujeito sempre na mulher dele. O fato é que é o destino, enrabicham-se. Têm seus próprios segredos entre si. Sujeitos que estariam na desgraceira se certas mulheres não tomassem conta deles. Daí essas mocetonas petulantes da altura de varapaus com miúdos maridinhos. Deus os faz e Ele os junta. As vezes os filhos até que saem bem. Duas vezes nada faz um. Ou velho ricaço de setenta com noivinha ruborizada. Quem em maio casa em dezembro se arrasa."

JOYCE, James, 1882-1941. Ulisses, Irlanda/França, 1922.

26 de setembro de 2011

O livro da natureza

"O grande livro, sempre aberto e que é preciso esforçar-se para ler, é o da natureza; os outros livros derivam desse e contêm também interpretações e equívocos dos homens."

GAUDÍ, Antoni, 1852-1926. El pensament de Gaudí (Compilació de textos i comentaris). Publicacions del Collegi d'Arquitectes de Catalunya, Barcelona, 1981 -- Antoni Gaudí / Tiziana Contri; tradução de Gustavo Hitzschky. Coleção Folha grandes arquitetos; v. 4. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2011, pág. 72.

2 de setembro de 2011

O Coração das Trevas

"No entanto, como podem ver, não fui juntar-me ao Sr. Kurtz. Não fui mesmo. Fiquei para sonhar o pesadelo até o fim e mostrar minha lealdade a ele uma vez mais. Destino. Meu destino! Coisa engraçada é a vida - misterioso arranjo de lógica implacável para um propósito fútil. O máximo que você pode esperar dela é algum conhecimento de si próprio... que chega tarde demais... uma colheita de inesgotáveis arrependimentos. Eu hava lutado com a morte. É o combate mais desinteressante que se pode imaginar. Acontece numa impalpável zona cinzenta, com nada sob os pés, nada ao redor, sem espectadores, sem clamor, sem glória, sem o grande desejo de vitória, sem o grande medo da derrota, numa atmosfera doentia de tépido ceticismo, sem muita fé em nossos próprios direitos, e menos ainda nos do seu adversário. Se tal é a forma da última e definitiva sabedoria, então a vida é um quebra-cabeça muito maior do que alguns de nós supõem que seja. Eu estava a milímetros da minha última oportunidade para fazer um pronunciamento, e descobri, com humilhação, que provavelmente não teria nada para dizer. Essa é a razão pela qual afirmo que Kurtz foi um homem notável. Ele tinha algo a dizer. E disse."

CONRAD, Joseph, 1857-1924. O Coração das Trevas (The Heart of Darkness), Inglaterra, 1902.

15 de agosto de 2011

As Cidades Invisíves

"Ao entrar no território que tem Eutrópia como capital, o viajante não vê uma mas muitas cidades, todas do mesmo tamanho e não dessemelhantes entre si, espalhadas por um vasto e ondulado planalto. Eutrópia não é apenas uma dessas cidades mas todas juntas; somente uma é habitada, as outras são desertas; e isso se dá por turnos. Explico de que maneira. No dia em que os habitantes de Eutrópia se sentem acometidos pelo tédio e ninguém mais suporta o próprio trabalho, os parentes, a casa e a rua, os débitos, as pessoas que devem cumprimentar ou que os cumprimentam, nesse momento todos os cidadãos decidem deslocar-se para a cidade vizinha que está ali à espera, vazia e como se fosse nova, onde cada um escolherá um outro trabalho, uma outra mulher, verá outras paisagens ao abrir as janelas, passará as noites com outros passatempos amizades impropérios. Assim as suas vidas se renovam de mudança em mudança, através de cidades que pela exposição ou pela pendência ou pelos cursos de água ou pelos ventos apresentam-se com alguma diferença entre si."

CALVINO, Ítalo, 1923-85. As Cidades Invisíveis (Le Cittá Invisibli), Itália, 1972.

22 de junho de 2011

Angústia

"Que é que me podia acontecer? Ir para a cadeia, ser processado e condenado, perder o emprego, cumprir sentença. A vida na prisão não seria pior que a que eu tinha. Realmente as portas ali são pretas e sujas, as grades de ferro são pretas e sujas, os móveis são pretos e sujos. É o que me amedronta. Aquele bolor, aquele cheiro e aquela cor horríveis, aquela sombra que transforma as pessoas em sombras, os movimentos vagarosos de almas do outro mundo, apavoram-me. Não posso enconstar-me às grades pretas e nojentas. Lavo as mãos numa infinidade de vezes por dia, lavo as canetas antes de escrever, tenho horror às apresentações, aos cumprimentos, em que é necessário apertar a mão que não sei por onde andou, as mãos que meteu os dedos no nariz ou mexeu nas coxas de qualquer Marina. Preciso muita água e muito sabão. Viver por detrás daquelas grades, pisar no chão úmido, coberto de escarros, sangue, pus e lama, é terrível. Mas a vida que levo talvez seja pior. Não tinha medo da cadeia. Se me dessem água para lavar as mãos, acomodar-me-ia lá. Podia o resto do corpo ficar sujo, podiam os piolhos tomar conta da cabeça e as roupas esfrangalhadas cobrir mal a carne friorenta. Se me dessem água para lavar as mãos, estaria tudo muito bem. Dar-me-iam água para lavar as mãos?"

RAMOS, Graciliano, 1892-1952. Angústia, Brasil, 1936.

31 de maio de 2011

Esculpir o Tempo

"Não consigo entender de modo algum o problema da 'liberdade' ou 'falta de liberdade' de um artista. Ele nunca é livre. A nenhum grupo de pessoas falta mais liberdade. O artista está preso ao seu dom, à sua vocação. Por outro lado, ele é livre para escolher entre expressar seu talento da maneira mais plena que puder, ou vender sua alma por trinta moedas de prata. A frenética busca de Tosltoi, Dostoievski e Gogol não foi estimulada pela consciência que tinham de sua vocação e do papel que lhes estava destinado? Também estou convencido de que nenhum artista trabalharia para cumprir sua missão espiritual se soubesse que sua obra jamais seria vista por alguém. Ao mesmo tempo, porém, sempre que estiver trabalhando, ele deve colocar um véu entre ele e as outras pessoas, para se proteger contra a abordagem de temas genéricos, vazios e triviais. Pois a concretização das possibilidades criativas de um artista só pode ser obtida através da honestidade e sinceridade totais, aliadas à consciência de sua própria responsabilidade para com os outros."

TARKOVSKI, Andrei, 1932-1986. Esculpir o Tempo (Die Versiegelte Zeit), Rússia, 1986-1987.

3 de maio de 2011

Admirável Mundo Novo

'' Mãe, monogamia, romance. A fonte jorra bem alto; o jato é bravio e espumante. O ardor só tem uma saída. Meu amor, meu filhinho. Não admira que esses pobres pré-modernos fossem loucos, perversos e miseráveis. Seu mundo não lhes permitia a tranquilidade, a sanidade mental, a virtude e a felicidade. Com as mães e as amantes, com as proibições que não estavam condicionados a obedecer, com as tentações e os remorsos solitários, com todas as doenças e a infindável dor que os isolava, com as incertezas e a pobreza - estavam condenados aos sentimentos fortes (e fortes principalmente na solidão, no desesperador isolamento individual), como poderia ser estável?''

HUXLEY, Aldous Leonard. 1894-1963. Admirável Mundo Novo / Aldous Huxley; tradução de Felisberto Albuquerque. São Paulo: Abril Cultural, 1980, pág. 65.