"Impassível, sem se preocupar sequer em demostrar a sua recente coragem, escutou as intermináveis culpas da acusação. Pensava em Úrsula, que a essa hora devia estar debaixo do castanheiro tomando chá com José Arcadio Buendía. Pensava na sua filha de oito meses, que ainda não tinha nome, e no que ia nascer em agosto. Pensava em Santa Sofia de la Piedad, a quem na noite anterior deixara salgando um veado para o almoço de sábado, e sentiu saudade do seu cabelo caído nos ombros e das suas pestanas que pareciam artificias. Pensava na sua gente, sem sentimentalismos, num severo ajuste de contas com a vida, começando a compreender quanto amava na realidade as pessoas que mais odiara. O presidente do Conselho de Guerra iniciou o seu discurso final, antes que Arcadio se desse conta de que haviam transcorrido duas horas. 'Ainda que as culpas comprovadas não apresentassem méritos mais que suficientes', dizia o presidente, 'a temeridade irresponsável e criminosa com que o acusado empurrou os seus subordinados para uma morte inútil bastaria para fazê-lo merecer a pena máxima'. Na escola arrebentada onde experimentou pela primeira vez a segurança de poder, a poucos metros do quarto onde conheceu a incerteza do amor, Arcadio achou ridículo o formalismo da morte. Realmente não se importava com a morte, e sim com a vida, por isso a sensação que experimentou quando pronunciaram a sentença não foi uma sensação de medo, mas de nostalgia. Não falou enquanto não lhe perguntaram qual era a sua última vontade".
GARCIA MÁRQUEZ, Gabriel, 1927-. Cem Anos de Solidão (Cien Años de Soledad), Colômbia, 1967.
21 de fevereiro de 2011
27 de janeiro de 2011
O óbvio ululante
"Por tudo que sei da vida, dos homens, deve-se ler pouco e reler muito. A arte da leitura é a da releitura. Há uns poucos livros totais, uns três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos. Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me: 'O que é que você leu?'. Respondi: 'Dostoievski'. Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: 'Que mais?'. E eu: 'Dostoievski'. Teimou: 'Só?'. Repeti: 'Dostoievski'. O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski. Ou uma única peça de Shakespeare. Ou um único poema não sei de quem. O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura."
RODRIGUES, Nelson, 1912-1980. O Óbvio Ululante, crônica "Uma Banana como Merenda", Brasil, 1968.
(Agradecimento a Felipe Medeiros, do blog O Cantinho do Ócio - http://cantinhodoocio.blogspot.com)
RODRIGUES, Nelson, 1912-1980. O Óbvio Ululante, crônica "Uma Banana como Merenda", Brasil, 1968.
(Agradecimento a Felipe Medeiros, do blog O Cantinho do Ócio - http://cantinhodoocio.blogspot.com)
6 de janeiro de 2011
Ficções
"Os metafísicos de Tlön não buscam a verdade nem sequer a verossimilhança: buscam o assombro. Julgam que a metafísica é um ramo da literatura fantástica. Sabem que um sistema não é outra coisa que a subordinação de todos os aspectos do universo a qualquer um deles. Até a frase 'todos os aspectos' é inaceitável porque supõe a impossível adição do instante presente e dos pretéritos. Também é lícito o plural 'os pretéritos', porque supõe outra operação impossível... Uma das escolas de Tlön chega a negar o tempo: argumenta que o presente é indefinido, que o futuro não tem realidade senão como esperança presente, que o passado não tem realidade senão como lembrança presente. Outra escola declara que já transcorreu todo o tempo e que nossa vida é apenas a lembrança ou reflexo crepuscular, e sem dúvida falseado e mutilado, de um processo irrecuperável. Outra, que a história do universo - e nela nossas vidas e o pormenor mais tênue de nossas vidas - é a escritura que produz um deus subalterno para entender-se com um demônio. Outra, que o universo é comparável a essas criptografias nas quais não valem todos os símbolos e que só é verdade o que sucede cada trezentas noites. Outra, que enquanto dormimos aqui, estamos despertos em outro lado e que assim cada homem é dois homens."
BORGES, Jorge Luis, 1899-1986. Ficções (Ficciones) - Conto "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius", Argentina, 1944.
BORGES, Jorge Luis, 1899-1986. Ficções (Ficciones) - Conto "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius", Argentina, 1944.
20 de novembro de 2010
On The Road
"Num entardecer lilás caminhei com todos os músculos doloridos entre as luzes da 27 com a Welton no bairro negro de Denver, desejando ser um negro, sentindo que o melhor que o mundo branco tinha a me oferecer não era êxtase suficiente para mim, não era vida suficiente, nem alegria, excitação, escuridão, música, não era noite o suficiente. Parei num pequeno quiosque onde um homem vendia chili apimentado em embalagens de papel; comprei alguns e comi percorrendo ruas escuras e misteriosas. Desejava ser um mexicano de Denver, ou mesmo um pobre japonês sobrecarregado de trabalho, qualquer coisa menos aquilo que eu tão aterradoramente era, um 'branco' desiludido. Durante toda minha vida vida, tivera ambições de branco: fora por isso que abandonei uma boa mulher como Terry no vale de San Joaquin. Passei pelos portais escuros das casas dos mexicanos e dos negros; por ali ecoavam vozes amenas e, ocasionalmente, podia-se vislumbrar até o joelho moreno de alguma garota enigmática e sensual, ou rostos sombrios de homens por trás das roseiras. Criancinhas sentavam-se como sábios em antigas cadeiras de balanço. Um grupo de negras foi se aproximando e uma das mais jovens destacou-se das anciãs de aspecto maternal e dirigiu-se rapidamente a mim - 'Alô, Joe' - e de repente viu que eu não era o Joe, e recuou, enrubescendo. Desejei ser Joe. Mas era apenas eu, Sal Paradise, melancólico, errando nessa escuridão violeta, naquela noite insuportavelmente encantadora, desejando poder trocar meu mundo pelo dos alegres, autênticos e extasiantes negros da América. Aquela periferia caindo aos pedaços me fez lembrar Dean e Marylou, que desde a infância conheciam tão bem aquelas ruas. Como gostaria de poder encontrá-los."
KEROUAC, Jack. 1922-1969. On The Road (Pé Na Estrada) / Jack Kerouac: tradução, introdução e posfácio de Eduardo Bueno. - Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 223-224.
KEROUAC, Jack. 1922-1969. On The Road (Pé Na Estrada) / Jack Kerouac: tradução, introdução e posfácio de Eduardo Bueno. - Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 223-224.
13 de outubro de 2010
Os Frutos da Terra
"...Com dezoito anos, terminados meus primeiros estudos, o espírito cansado de trabalho, o coração desocupado, definhado por isso, o corpo exasperado pelos constrangimentos, parti pelas estradas, sem meta, ao sabor de minha febre erradia. Conheci tudo o que sabeis: a primavera, o odor da terra, a floração das ervas nos campos, as brumas das manhãs sobre os rios, e o vapor da tarde nos prados. Atravessei cidades, e não quis parar em nenhum lugar. Feliz, pensava, quem não se prende a nada na terra e passeia um eterno fervor através das constantes mobilidades. Odiava os lares, as famílias, todos os lugares em que o homem pensa encontrar descanso; e as afeições contínuas, e as fidelidades amorosas, e o apego às idéias - tudo o que compromete a justiça; dizia que cada novidade deve encontrar-nos sempre diponíveis."
GIDE, André, 1869-1951. Os Frutos da Terra (Les Nourritures Terrestres), França, 1897.
GIDE, André, 1869-1951. Os Frutos da Terra (Les Nourritures Terrestres), França, 1897.
2 de outubro de 2010
Os Moedeiros Falsos
"- O egoísmo também não. E é isso o que não sabe... Queriam nos fazer acreditar que não existe para o homem outra fuga do egoísmo além de um altruísmo ainda mais horrível! Quanto a mim, considero que, se há algo mais desprezível do que o homem, e mais abjeto, são muitos homens. Nenhum raciocínio poderia convencer-me de que a soma de unidades sórdidas possa dar um total delicado. Não entro num bonde ou num trem sem desejar um belo acidente que reduza a farinha todo aquele lixo vivo. Oh! Eu inclusive, é claro. Nem numa sala de espetáculos sem desejar a queda do lustre ou o estouro de uma bomba, e, como eu deveria explodir junto, de boa vontade a levaria debaixo do paletó, se não me reservasse coisa melhor. Dizia?..."
GIDE, André, 1869-1951. Os Moedeiros Falsos (Les Faux-Monnayeurs), França, 1925.
GIDE, André, 1869-1951. Os Moedeiros Falsos (Les Faux-Monnayeurs), França, 1925.
14 de setembro de 2010
O Renegado
"-Em muitas coisas -disse ela. - Admirando essas flores, que parecem feitas para nós, eu perguntava para mim mesma para quem nós somos feitos, nós; quais são os seres que nos interessam. Vós sois meu pai, posso dizer-vos o que em mim se passa; vós sois hábil, posso explicar-vos tudo. Sinto em mim como que uma força que necessita exercer-se, luto contra qualquer coisa. Quando o tempo está cinzento, estou meio contente, sinto-me triste, mas tranqüila. Quando está bonito, quando as flores cheiram bem, quando estou além, sentada no meu banco sob as madressilvas e os jasmins, elevam-se em mim vagas a quebrar-se contra minha imobilidade. Vêm-me ao espírito idéias, que me ferem e somem semelhante aos pássaros que, à tarde, passam pelas nossas janelas e não consigo retê-las. Quando faço um ramalhete em que as cores são bem combinadas como num bordado, em que o vermelho morde o branco, em que o verde e o marrom se cruzam, quando tudo nele se confunde, que o ar brinca entre essas flores, misturam-se os perfumes dos cálices, sinto-me feliz, reconhecendo o que em mim se passa. Quando, na igreja, o órgão toca e os meninos respondem, dois cantos distintos falam; as vozes humanas e a música. Nesse instante, sinto-me contente, pois essa harmonia ecoa no meu coração, rezo com um prazer que me anima o sangue..."
BALZAC, Honoré de, 1799-1850. O Renegado (L'Enfant Maudit), França, publicado em dez partes de 1831 a 1836, e, pela primeira vez em um único volume, a 1837.
BALZAC, Honoré de, 1799-1850. O Renegado (L'Enfant Maudit), França, publicado em dez partes de 1831 a 1836, e, pela primeira vez em um único volume, a 1837.
5 de agosto de 2010
A Mulher de Trinta Anos
"Entregue a si mesma, a marquesa pôde, pois, permanecer perfeitamente silenciosa em meio ao silêncio que estabelecera em volta de si, e não teve ocasião para sair do quarto forrado de tapeçarias onde falecera sua avó, e onde se recolhera para morrer suavemente, sem testemunhas, sem importunações, sem sofrer as falsas demonstrações dos egoísmos mascarados de afeição que, nas cidades, causam aos moribundos uma dupla agonia. Essa mulher tinha vinte e seis anos. Nessa idade, uma alma ainda cheia de ilusões poéticas encontra prazer em saborear a morte, quando ela se afigura benfazeja. Mas a morte é uma sedutora falaz das pessoas jovens; aproxima-se e recua, mostra-se e esconde-se; a demora desilude-as dela, a incerteza que lhes causa o amanhã termina por lançá-las de novo no mundo, onde tornarão a encontrar a dor que, mais impiedosa que a morte, há de feri-las sem fazer esperar. Ora, essa mulher que se recusava a viver ia sentir a amargura dessa demora no fundo de sua solidão, e nesta fazer, numa agonia moral que a morte não terminaria, uma terrível aprendizagem de egoísmo que devia corromper-lhe o coração e amoldá-lo à sociedade."
BALZAC, Honoré de, 1799-1850. A Mulher de Trinta Anos (La Femme de Trente Ans), França, 1834.
BALZAC, Honoré de, 1799-1850. A Mulher de Trinta Anos (La Femme de Trente Ans), França, 1834.
5 de julho de 2010
O Jovem Törless
"Pois os pensamentos são uma coisa estranha. Muitas vezes não passam de acasos que desaparecem sem deixar rastros; os pensamentos tem épocas de viver e épocas de morrer. Pode-se ter uma idéia genial, e ainda assim, como uma flor, ela murchará lentamente entre nossas mãos. Permanece uma forma, mas faltam suas cores e seu aroma. Isso significa que, embora posteriormente nos lembremos bem dessa idéia, palavra por palavra, e o valor lógico da frase permaneça inalterado, ela apenas flutua desorientada na superfície de nosso interior, e não mais nos sentimos enriquecidos por possui-la. Até que - talvez anos depois - de súbito surge o momento em que vemos que, naquele meio-tempo, nada sabíamos sobre ela, ainda que, do ponto de vista da lógica, soubéssemos tudo."
MUSIL, Robert, 1880-1942. O Jovem Törless (Die Verwirrungen Des Zöglings Törless), Áustria, 1906.
MUSIL, Robert, 1880-1942. O Jovem Törless (Die Verwirrungen Des Zöglings Törless), Áustria, 1906.
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