15 de julho de 2011

O Homem sem Século

"De tempos em tempos, sentia essa vontade louca de me zerar, de descartar tudo que aprendi e de todas minhas posses e simplesmente começar de novo. Minha natureza desconfiada sempre causara isso. Quando alguém me traía, queria jogar fora tudo que sua geração havia me ensinado. De alguma maneira, sentia que o lote inteiro, e não somente a peça, estava defeituoso. Isso me ocorreu pela primeira vez quando conheci Cristo. Talvez porque o tenham apresentado da maneira errada; soube da lenda antes do homem. Conheci Deus, os romanos, toda a magia e os poderes a mim inacessíveis – eu, um menino que ainda não amarrava os próprios sapatos. E lá estava Judas, o traidor; Madalena, a prostituta; os apóstolos e toda aquela era de homens menores perdidos em seus aprazeres e sua política. As classes sociais, os ricos, os pobres, a guerra, o pão e o circo e nada daquilo fazia sentido em minha realidade. A confiança seria derrubada por um beijo; a salvação abandonada à própria sorte com uma lança espetada no abdômen. Era cruel esperar que uma criança processasse tudo aquilo e virasse a outra face, que guiasse seus atos esperando redenção ou castigo eterno. Tive noção de minha própria finitude e experimentei pela primeira vez o terror absoluto. Recuei e passei a temer o rosto alvo e outrora bondoso que, dependurado acima da cristaleira na sala de estar, guardava a todos que adentravam a casa em que morava. Disseram-me que meus pecados haviam sido lavados no batismo. Desesperei-me então com o destino de meus irmãos mais novos que ainda não haviam sido imersos no líquido papal. Queria afogá-los, fazê-los drenar cada gota da solução sacra até sentir seus pequenos corpos inertes, entregues às leis da eucaristia. Eu os carregaria, pálidos, e os entregaria aos meus familiares; de seus esqueletos fariam minha cruz e a carne, o sangue e as entranhas seriam minha oferenda. Passaram-se anos até que eu digerisse tudo. É sevo o que se pode imprimir na mente de um infante. Assim, cresci com estas idéias embebidas em mim: de que nascera impuro e que toda a crueldade do passado me receberia assim que eu morresse. Tive medo de fechar os olhos e adormecer. A paz eterna jamais seria alcançada."

OLIVEIRA, André. O Homem Sem Século. São Paulo, 2011.

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